Medicina e Humanização

O Silêncio que Cura: A Arte Perdida da Escuta na Medicina e na Vida

Por Felipe Sá Ferreira 6 de janeiro de 2026 15 min de leitura

"É o privilégio do conhecimento falar, e é o privilégio da sabedoria escutar."

— Oliver Wendell Holmes

A Era do Ruído

Vivemos submersos em um oceano de palavras. Notificações que não cessam, opiniões que se multiplicam, diagnósticos apressados, conversas onde todos falam e ninguém ouve. A informação tornou-se tão abundante que se transformou em ruído — e no meio desse ruído, perdemos algo precioso: a capacidade de escutar.

Na medicina, essa perda tem consequências mensuráveis. E na vida, consequências que nem sempre sabemos nomear, mas que sentimos na solidão de não sermos verdadeiramente ouvidos.

Este texto é sobre o silêncio. Não o silêncio vazio da omissão, mas o silêncio fértil da presença. O silêncio que cura.

Onze Segundos

Em 2018, um estudo publicado no Journal of General Internal Medicine revelou um número que deveria nos fazer parar — literalmente. Pesquisadores da Universidade da Flórida e da Mayo Clinic analisaram 112 consultas médicas e descobriram que, em média, os médicos interrompem seus pacientes após apenas 11 segundos.

Referência: Singh Ospina, N. et al. (2019). "Eliciting the Patient's Agenda — Secondary Analysis of Recorded Clinical Encounters." Journal of General Internal Medicine, 34(1), 36-40.

Onze segundos. O tempo de uma respiração profunda. O tempo que levamos para ler este parágrafo.

O estudo mostrou que apenas 36% dos pacientes conseguiram explicar o motivo de sua consulta antes de serem interrompidos. E quando tinham essa chance? Mesmo assim, eram interrompidos em 67% das vezes — geralmente para responder perguntas fechadas que exigiam apenas "sim" ou "não".

Não é um dado novo. Em 1984, Beckman e Frankel já haviam documentado que médicos interrompiam pacientes após 18 segundos em média. Em 2001, um estudo com residentes mostrou que o tempo havia caído para 12 segundos. A tendência é clara: estamos ouvindo cada vez menos.

"Nossos resultados sugerem que estamos longe de alcançar um cuidado centrado no paciente", concluíram os autores. E acrescentaram algo importante: quando os pacientes não são interrompidos, eles completam o que têm a dizer em cerca de 90 segundos. Um minuto e meio. É tudo o que a maioria das pessoas precisa para contar sua história — se alguém estiver disposto a ouvir.

A Ciência do Silêncio

Poderíamos argumentar que a escuta é apenas uma questão de cortesia, de boas maneiras médicas. Mas a ciência conta uma história mais profunda.

Em 2009, pesquisadores da Universidade de Wisconsin conduziram um estudo elegante sobre o resfriado comum. Trezentos e cinquenta pacientes foram divididos aleatoriamente entre consultas "padrão" e consultas "aprimoradas" — estas últimas enfatizando empatia, escuta atenta e conexão genuína. Os pacientes avaliaram seus médicos usando o questionário CARE (Consultation and Relational Empathy), que mede se o profissional realmente ouviu, se demonstrou interesse pela pessoa como um todo, se mostrou compaixão.

Os resultados foram surpreendentes. Pacientes que deram nota máxima para a empatia de seus médicos tiveram resfriados significativamente mais curtos: 7,1 dias versus 8,0 dias. Quase um dia inteiro a menos de sintomas.

Mas o dado mais impressionante veio dos exames laboratoriais. Os pesquisadores mediram os níveis de interleucina-8 (IL-8), um marcador da resposta imunológica, através de lavagem nasal. Nos pacientes que relataram empatia "perfeita" de seus médicos, os níveis de IL-8 aumentaram mais que o dobro em comparação com os demais.

Referência: Rakel, D.P. et al. (2009). "Practitioner Empathy and the Duration of the Common Cold." Family Medicine, 41(7), 494-501.

Leia novamente: ser ouvido com atenção fortaleceu o sistema imunológico dos pacientes.

Como escreveu David Rakel, autor principal do estudo: "Quando pacientes percebem seus médicos como empáticos, a severidade, duração e marcadores objetivos do resfriado mudam significativamente. Isso nos ajuda a entender a importância da percepção de empatia no encontro terapêutico."

A psiconeuroimunologia — o estudo de como processos psicológicos afetam os sistemas nervoso e imunológico — oferece explicações para esse fenômeno. A empatia percebida reduz a ansiedade do paciente, diminui os níveis de cortisol, aumenta a confiança e a disposição para seguir o tratamento. Mas talvez haja algo mais. Talvez ser verdadeiramente ouvido ative mecanismos de cura que ainda não sabemos nomear completamente.

A Tipologia do Silêncio

Nem todo silêncio é igual. Pesquisadores em medicina paliativa identificaram diferentes tipos de silêncio no encontro clínico, cada um com efeitos distintos.

Há o silêncio que retém — o do médico que simplesmente não fala, esperando que o paciente preencha o vazio. É um silêncio instrumental, às vezes útil, mas frequentemente desconfortável.

Há o silêncio que convida — uma pausa deliberada que sinaliza ao paciente: "há espaço aqui para você continuar, se quiser". É mais acolhedor, mas ainda está focado na expectativa de uma resposta.

E há um terceiro tipo, menos estudado mas talvez mais poderoso: o silêncio compassivo. Pesquisadores do Fred Hutchinson Cancer Research Center e da Universidade de Washington descreveram-no assim: "um silêncio que reflete a qualidade da mente que o clínico traz para o encontro; um silêncio que afirma conexão e compreensão, e permite que uma sabedoria mútua emerja".

Referência: Back, A.L. et al. (2009). "Compassionate Silence in the Patient–Clinician Encounter: A Contemplative Approach." Journal of Palliative Medicine, 12(12), 1113-1117.

O silêncio compassivo não é uma técnica. É uma presença. Requer o que tradições contemplativas chamam de intenção — a orientação ativa do clínico para seu papel como alguém que busca reduzir o sofrimento. Requer atenção plena, a capacidade de estar verdadeiramente presente sem julgamento. E requer o que poderíamos chamar de generosidade de espírito: a suspensão ativa de preconceitos, a abertura genuína para o que o outro traz.

Este silêncio não é vazio. É plenitude. Não é ausência de palavras. É presença absoluta.

O Silêncio como Verbo

Há silêncios que são rendição. E há silêncios que são resistência.

Aprendi isso não apenas nos consultórios, mas na vida. Houve um tempo em que vozes gritavam sobre mim — nas ruas, nas telas, nas conversas que não me incluíam. E eu, do outro lado do ruído, escolhi o silêncio. Não o silêncio da omissão ou da derrota. O silêncio de quem confia que a verdade não precisa de megafone.

Nesse silêncio, escrevi um livro. Estudei. Refleti. Construí.

Descobri que o silêncio pode ser o espaço onde a alma trabalha enquanto o mundo se distrai com o barulho. Como a semente que germina no escuro da terra — invisível, mas intensamente viva.

A justiça tem seu ritmo. Às vezes, dolorosamente lento. Mas o silêncio não é espera passiva. É produção sem ruído. É a recusa de alimentar fogueiras com mais lenha. É confiar que, no tempo certo, a luz atravessa qualquer escuridão.

Foi nesse silêncio que nasceu A Máquina e o Fantasma. E talvez seja por isso que ele fala tanto sobre escutar — porque foi escrito por alguém que aprendeu, na pele, o poder do que não é dito.

A Cadeira Vazia

Na psicoterapia gestáltica existe uma técnica chamada "cadeira vazia". O paciente fala com uma cadeira desocupada, imaginando ali alguém com quem precisa conversar — um pai ausente, um amor perdido, uma versão de si mesmo. A cadeira não responde. E é justamente esse silêncio que permite ao paciente ouvir o que precisa ouvir.

Penso na cadeira vazia como metáfora para o consultório médico. Quantas vezes o paciente entra carregando algo que precisa dizer — não apenas sintomas, mas medos, culpas, perguntas que não sabe formular? E quantas vezes sai sem ter dito, porque não encontrou o silêncio necessário para que as palavras emergissem?

Em A Máquina e o Fantasma, escrevi sobre a "palavra do corpo" — aquilo que o organismo tenta comunicar através de sintomas que a medicina convencional frequentemente não consegue decifrar. Dor pélvica crônica que nenhum exame explica. Fadiga que não responde a nenhum tratamento. Mal-estar que habita o corpo mas parece vir de outro lugar.

Essas palavras do corpo raramente se revelam em 11 segundos. Elas precisam de espaço. De tempo. De um silêncio que não julga, não interrompe, não diagnostica prematuramente. Um silêncio que simplesmente acolhe.

A "máquina" — nosso corpo físico, mensurável, tratável por protocolos — tem sua linguagem de exames e indicadores. Mas o "fantasma" — aquilo que habita a máquina, que dá sentido ao viver e ao sofrer — fala em outra frequência. E essa frequência só se ouve no silêncio.

O Paradoxo do Médico Surdo

Em 2018, uma pesquisa da Medscape perguntou a milhares de médicos sobre suas habilidades de comunicação. O resultado foi revelador: 87% dos médicos acreditam que são bons ouvintes.

Compare esse número com os 11 segundos. Com os 67% de interrupções. Com os pacientes que saem de consultas sentindo que não foram ouvidos.

Não se trata de culpar os médicos. A medicina moderna criou um sistema que conspira contra a escuta. Consultas de 15 minutos. Prontuários eletrônicos que exigem olhar para a tela em vez do paciente. Metas de produtividade que transformam pessoas em números. Protocolos que prometem eficiência mas entregam desumanização.

Mas há também algo mais profundo. A formação médica tradicional ensina a falar — a nomear doenças, a prescrever tratamentos, a comunicar diagnósticos. Ensina muito menos a ouvir. E quase nada a estar em silêncio.

A boa notícia é que a escuta pode ser aprendida. Um estudo da Cleveland Clinic mostrou que um treinamento de apenas 8 horas em comunicação empática melhorou significativamente os escores de satisfação dos pacientes, aumentou a empatia medida nos médicos e — surpreendentemente — reduziu o burnout. Médicos que aprendem a ouvir se esgotam menos.

Referência: Boissy, A. et al. (2016). "Communication Skills Training for Physicians Improves Patient Satisfaction." Journal of General Internal Medicine, 31(7), 755-761.

E há um dado ainda mais provocador: pesquisadores descobriram que a diferença entre uma interação "exemplar" e uma interação comum com pacientes é de apenas 7 segundos adicionais. Sete segundos. Menos tempo do que você levou para ler esta frase.

Prescrição de Silêncio

Se você é profissional de saúde, um convite: na próxima consulta, experimente esperar. Depois que o paciente terminar de falar, conte até três em silêncio antes de responder. É pouco tempo — mas é um começo. Você se surpreenderá com o que emerge quando damos espaço para o não-dito.

Se você é paciente, uma permissão: você tem direito de ser ouvido. Se sentir que não está sendo, diga: "Preciso que você me ouça por um momento". A maioria dos médicos, quando confrontados com essa necessidade expressa, consegue parar. Às vezes, precisamos ensinar ao outro como nos ouvir.

E se você é simplesmente humano — e todos somos — um exercício: escolha uma conversa hoje e pratique apenas ouvir. Sem preparar sua resposta enquanto o outro fala. Sem interromper para concordar ou discordar. Sem preencher as pausas com suas próprias palavras. Apenas ouça. E observe o que acontece.

O silêncio atento é um ato de generosidade radical. Em um mundo que grita, escolher ouvir é quase revolucionário.

O Som do Silêncio

Há uma canção antiga que fala sobre o "som do silêncio" — pessoas falando sem dizer, ouvindo sem escutar. Foi escrita em 1964, mas poderia ter sido escrita ontem.

O silêncio que cura não é a ausência de som. É a presença de atenção. Não é um vazio a ser preenchido, mas um espaço a ser habitado. Não é passividade — é talvez a forma mais intensa de ação.

Às vezes, a melhor prescrição é um silêncio atento. Às vezes, a cura começa quando paramos de falar e começamos, finalmente, a ouvir.

Não apenas com os ouvidos. Com a alma.

"Para onde vai o olhar de um médico quando ele fecha os olhos? Talvez para o mesmo lugar onde vai a dor de um paciente quando finalmente encontra alguém disposto a ouvir." — A Máquina e o Fantasma

Referências Bibliográficas

1. Singh Ospina, N. et al. (2019). Eliciting the Patient's Agenda — Secondary Analysis of Recorded Clinical Encounters. Journal of General Internal Medicine, 34(1), 36-40.
2. Beckman, H.B. & Frankel, R.M. (1984). The effect of physician behavior on the collection of data. Annals of Internal Medicine, 101(5), 692-696.
3. Rakel, D.P. et al. (2009). Practitioner Empathy and the Duration of the Common Cold. Family Medicine, 41(7), 494-501.
4. Rakel, D. et al. (2011). Perception of Empathy in the Therapeutic Encounter: Effects on the Common Cold. Patient Education and Counseling, 85(3), 390-397.
5. Back, A.L. et al. (2009). Compassionate Silence in the Patient–Clinician Encounter: A Contemplative Approach. Journal of Palliative Medicine, 12(12), 1113-1117.
6. Jagosh, J. et al. (2011). The importance of physician listening from the patients' perspective. Patient Education and Counseling, 85(3), 369-374.
7. Boissy, A. et al. (2016). Communication Skills Training for Physicians Improves Patient Satisfaction. Journal of General Internal Medicine, 31(7), 755-761.
8. Bottussi, A. et al. (2025). Integrating Therapeutic Silence in Serious Illness Communication. Journal of Palliative Medicine (Fast Facts #509).